Massacre dos Índios na Campanha da Vacaria – Cartas e Ofícios

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08/12/2016 por FG Rincão da Forquilha

As escaramuças entre índios e fazendeiros da Campanha da Vacaria resultaram no massacre de 1779.

O personagem central deste episódio foi o capitão Joaquim José Pereira, comandante da Companhia de Cavalaria Auxiliar de Vacaria. O massacre ocorreu em meados de dezembro/1779 e gerou protestos e pedidos de explicação do vice-rei das Províncias do Rio da Prata ao vice-rei do Brasil.

Os fatos ocorridos e seus desdobramentos foram documentados nos ofícios trocados entre governadores e responsáveis pelo governo do Rio Grande e o vice-rei do Estado do Brasil, Luis de Vasconcelos e Sousa, anuários de 1780 e 1781, arquivados na Biblioteca Nacional – Coleção Castelo Melhor.

Segue transcrição destes ofícios na ordem cronológica.

Ofício de 19/06/1780, do vice-rei do Brasil ao governador do Rio Grande :

Como creio que pertencem ao distrito desse governo os Povos, de que trata a carta do vice-rei das Provincias do Rio da Prata, de que remeto a cópia a V.S. para que vendo assim, para que o mesmo vice-rei me escreveu, lhe dê logo todas as precisas e prontas providências, que espero da eficacia de V.S. avisando-me do que houver, e se tiver passado, para eu poder dar aquele vice-rei sobre a mesma teria uma resposta certa, e porque a confusão, com que se explica a carta me faz lembrar também, que os sobreditos Povos poderão pertencer a Capitania de São Paulo, escrevi ao Sr. general daquela Capitania para o mesmo fim, no caso de lhe pertencerem.

Deus guarde a V.S. Rio 19 de junho de 1780/ Luis de Vasconcelos e Souza/ Sr. brigadeiro Sebastião Xavier da Veiga Cabral da Camara/”

Ofício de 16/07/1780, do governador do Rio Grande ao vice-rei do Brasil:

“ Mmo. Exmo. Sr./ Recebo a carta de V.Excia. Feita em 19 de Junho próximo passado com a cópia da que o vice-rei de Buenos Aires dirigiu a V. Excia. Na data de 28 de março, relatando ter recebido avisos das hostilidades que experimentearam por parte de alguns portugueses vizinhos do Uruguai, e Paraná os índios, sem declaração de serem vassalos de Espanha, como suponho, intentava individuar. Ordenando-me V.Excia, desse eu as prontas providências, que exigiam as circuntâncias acima referidas, caso de pertencerem ao distrito deste governo os Povos, de que faz menção o sobredito general espanhol, e que na realidade são sujeitos ao Sr. general da Capitania de São Paulo.

Deus guarde a V.Excia. Muitos anos. Porto Alegre 16 de julho de 1780/ Ilmo. e Exmo. Sr. Luis de Vasconcelos Souza/ Sebastião Xavier da Veiga Cabral da Camara/”

Ofício de 26/09/1780, do vice-rei do Brasil ao governador do Rio Grande:

No ofício de V.S. de 26 de junho deste ano, vejo que V.S. me diz, que não pertencem ao distrito do seu governo os Povos vizinhos do Uruguai, e Paraná, onde sucedeu a desordem, de que me avisava o vice-rei das Províncias do Rio da Prata na carta, de que remeti a V.S a cópia no meu Ofício de 28 de março próximo passado, que escrevi a V.S, para que no caso de lhe pertencer, desse as providências precisas para se aplacar aquela desordem e se evitarem para o futuro outras semelhantes; e como a dúvida, em que estava do distrito, onde pertenciam aqueles Povos, me obrigou a escrever também ao Sr. general de São Paulo, sobre esta matéria, e me escreveu o Ofício, de que remeto a cópia inclusa a V.S., onde me assegura, que os ditos Povos pertencem ao distrito desse governo: V.S. mandará averiguar isto com a maior individuação, para que vindo V.S. no conhecimento, que lhe pertencem, dê logo aquelas precisas providências, avisando-me do que se tiver passado; como também se já estiverem dadas as ditas providências; pois me lembra, que já agora poderá V.S. ter conhecido isto mesmo, e por consequencia cautelado tudo, o que a este respeito lhe advertia, e se fazia indispensável.

Necessito com a maior brevidade que for possível a notícia do estado, em que se acha o sobredito incidente, e do que a respeito dele se tem passado, para poder dar para a Corte uma conta com toda a precisa individuação.

Deus guarde a V.S. Rio 26 de setembro de 1780/ Luis de Vasconcelos e Souza/ Sr. brigadeiro Sebastião Xavier da Veiga Cabral da Camara/”

Cópia da resposta do general da Capitania de São Paulo ao vice-rei do Brasil, anexa ao ofício de 26/09/1780:

Mmo. E Exmo. Sr./ Em janeiro do corrente ano recebi do capitão-mor da vila de Lages uma carta em data de 18 de dezembro do ano passado, em que me participava, o que consta da cópia inclusa de um capítulo dela; e chegando o dito capitão-mor a esta cidade, tive o cuidado de procurar-lhe por aquela desordem, e me assegurou tinha sido na Campanha da Vacaria, jurisdição do governo de Viamão; e o oficial, que a defendeu, foi o capitão Joaquim José Pereira, que na verdade fizera a mortandade naquele gentio com alguma desumanidade, pelo ter antecedentemente presos, se bem que o motivo fora o dos mesmos gentios virem insultar os moradores daquele distrito.

É com que posso responder ao Ofício de V.Excia, que tive a honra de receber com data de 18 de junho antecedente com a cópiada carta, que lhe dirigiu o vice-rei das Províncias do Rio da Prata, sendo certo, que o não ter participado a mais tempo, o que acima le vai dito, foi por não ser aquela ação no distrito do meu governo, e me persuadir tenha dado parte o governo de Viamão, a quem pertencia.

Deus guarde a V.Excia. São Paulo 20 de julho de 1780/ Martim Lopes Lobo de Saldanha/ Mmo. E Exmo. Sr. Luis de Vasconcelos e Souza/”

Cópia de um parágrafo da carta de Correa Pinto ao general da Capitania de São Paulo, anexa ao ofício de 20/07/1780:

Cópia de um parágrafo da carta do cpaitão-mor regente da Lages Antonio Correa Pinto datada em 18 de dezembro de 1779, que veio inclusa na carta acima do Sr. general de São Paulo.

No tempo, que me aprestava para a minha transgressão, chegou-me a notícia de dar o gentio nas fazendas dos fundos da Campanha da Vacaria, que se divide com esta, onde fizerão mortes e grande estrago; e com este temor se tem despovoado, e ajuntado um pequeno corpo daqueles moradores, e dando neles mataram 78, e os que escaparam se reforçaram com maior número, e voltaram a darem em outras fazendas, que já se tinham despovoado, e com este moviemnto também os moradores deste Continente ficam bem atemorizados, e os fico aplacando/ José Ignácio Ribeiro Ferreira/”

Ofício de 11/11/1780 do governador do Rio Grande ao vice-rei do Brasil:

Mmo. E Exmo. Sr./ Fico na indigência da Real Resolução de S. Magestade, que me foi participada por V.Excia., e pelo Tribuanal da Junta da Fazenda dessa capital, sobre os limites das do Rio Grande e de São Paulo, destinando-se a esta o Registro de São Jorge; em cuja consequencia fundado nas ordens de V. Excia. Escrevi ao Sr. general dela, para que teve as providências sobre a retirada dos destacamento composto da tropa deste Continente; ordenando porém ao oficial, que o comanda, que logo que passasse o rio das Pelotas/ indisputavelmente dentro do distrito deste governo/ se situasse na sua margem, com o destino, não só de cobrar o extravio dos Deveres Reais pelo que toca ao Registro de cima da Serra; mas também de proteger os moradores da Vacaria contra os insultos dos gentios, que ainda não cessaram de ameaçá-los.

Deus guarde a V. Excia. Muitos anos. Vila de São Pedro do Rio Grande 11 de novembro de 1780/ Mmo. E Exmo. Sr. Luis de Vasconcelos e Souza/ Sebastião Xavier da Veiga Cabral da Camara/”

Ofício de 09/12/1780 do vice-rei do Brasil ao governador do Rio Grande:

No ofício de 9 de novembro próximo me refere V.S., o que obraram os vassalos de S. Magestade na Campanha da Vacaria, e vejo ter sido tudo bem diferente, do que eu podia entender do ofício do vice-rei do Rio da Prata, que remeti por cópia a V.S., pois conheço, que V.S. discorre com o seucostumado acerto, quando pondera, que em semelhantes circunstâncias nem se pode dizer que os vassalos portugueses fizeram alguma injúria aos vassalos de S.M.C, quando para se defenderem a si, e aos seus bens usaram do único meio que tinham contra aqueles bárbaros; que é certo, se não podem reputar vassalos de S.M.C., e que naquele caso sem um grande absurdo se nãodeviam reputar tais, e muito menos para em certo modo se protegerem, pedindo qualquer sacrifício.

Não posso deixar de aprovar o arbítrio e resolução de V.S. a este respeito e como me diz, que pretende ir pessoalmente examinar com a maior individuação este fato, assim para castigar os que achar terem excedido os justos limites no sobredito procedimento, como para continuar as providências, que já principiou a dar, e as que julgar mais convenientes para evitar para o futuro semelhantes insultos, fico certo, de que estas serão as mais próprias, e as mais eficazes; e de que os castigos serão os mais proporcionados aqueles excedido, no caso, que eles sejam tais, que os mereçam.

Espero, que V.S. me participe com toda a individuação, em que consistiram os excessos, que no sobredito fato se atribuem aos vassalos portugueses, e tudo o mais, que V.S. descobrir, e se praticar a esse respeito.

Deus guarde a V.S. Rio 9 de dezembro de 1780/ Luis de Vasconcelos e Souza/ Sr. brigadeiro Sebastião Xavier da Veiga Cabral da Camara/”

Ofício de 14/03/1781 do governador do Rio Grande para o vice-rei do Brasil:

Mmo. E Exmo. Sr./ Poucos dias depois de ter avisado a V.Excia. A dúvida, que se ofereceu entre mim, e o Comissário Espanhol D. Vicente Ximenes sobre a entrega, que se lhe deve fazer em conformidade dos artigos 2º e 7º do Tratado Preliminar, acrescentaram os documentos juntos, que ponho na presença de V.Excia., posto que em nada alienam o estado daquela negociação afecto por mim a V.Excia, a quem juntamente envio o Mapa das Tropas deste Continente, certificando a V. Excia. Haver chegado do Rio Grande a esta vila na semana próxima passada, e fazer intenção de por-me amanhã em marcha para os distritos de cima da Serra e Vacaria.

Deus guarde a V.Excia. Muitos anos Porto Alegre 14 de março de 1781/ Mmo. E Exmo. Sr. Luis de Vasconcelos e Souza/ Sebastião Xavier da Veiga Cabral da Camara/”

Ofício de 14/04/1781 do governador do Rio Grande para o vice-rei do Brasil:

Mmo. E Exmo. Sr./ Pondo em execução a revista dos distritos de cima da Serra, e Vacaria, observei a desordem, que a falta de conhecimento daquele terreno havia ocasionado, e tive a satisfação de deixar algumas providências, a que era impossível satisfazer por meio de informações estranhas; desenganei-me, que os Campos de cima da Serra são bons, e os da Vacaria os mais aprazíveis, que tenho encontrado; uns e outros foram povoados a porfia, pagando-os os moradores deste Continente por qualquer preços, e abandonando para isso os seus antigos domicilios. Da mesma sorte passados alguns anos se principiaram a retirar deles, pretextando a sua inconstância com o defeito de não serem todas as estâncias da Vacaria igualmente férteis na produção, e criação do gado; ao mesmo passo, que não podiam negar a sua abundância de cavalos, mulas, e todo o gênero de frutas, como também de admiráveis águas, boas madeiras, e variedade de casa.

A notícia mais exata, que pude alcançar do acontecimento originado pela irupção dos gentios, será constante a V. Excia. A vista dos documentos juntos, que me parece em nada alienaram as antecedentes, que havia tido na honra de por na presença de V. Excia. Sobre a mesma matéria, e as outra relações, que acompanham esta carta per si constituem a prova mais decisiva da desordem acima, a qual envolve nada menos, que o risco imediato de perder uma das importantes fronteiras deste Continente.

Se fora justo adotar o espírito da reconvenção, nada me seria mais fácil, que manifestar a injustiça, com que o Sr. vice-rei do Rio da Prata se queixa dos moradores da Vacaria, os quais tanto não cometeram as hostilidades, que se lhes pretendia acumular contra vassalos de Espanha, que antes eles as recebem dos mesmos: frequentes vezes, sendo, hoje em dia, muito mais receio dos índios domésticos de Missões, com quem confiam, que dos próprios gentios, de que tem sido ameaçados.

Deus guarde a V.Excia. Mutos anos. Porto Alegre 14 de abril de 1781/ Mmo. e Exmo. Sr. Luis Vasconcelos e Souza/ Sebastião Xavier da Veiga Cabral da Camara/”

Documentos que acompanham o ofício acima estão publicados no link:

Ofício de 21/05/1781 do vice-rei do Brasil para o governador do Rio Grande:

De um Ofício que recebo de V.S. com data de 14 de março deste ano, e documentos a ele juntos, vejo que o Comissário Espanhol insiste na dúvida sobre admitir a exceção, que V.S. justamente pretende nas restituições, que se lhe devem fazer; a qual dúvida eu já respondi no meu Ofício de 1º de abril deste ano; e como não acresce fundamento algum, que dê maior força a dita dúvida, me reporto ao mesmo, que disse naquele Ofício.

Por outro ofício de V.S. de 14 de abril deste mesmo ano me confirmo toda vez mais da sem razão, com que o vice-rei das Províncias do Rio da Prata pedia satisfação daquilo mesmo, em que os vassalos portugueses, habitadores da Vacaria são os ofendidos; e fico ao mesmo tempo conhecendo a necessidade das providências, que V.S. tem dado, as quais, a vista da desordem, com que os habitadores daquele distrito o vão desamparando, se fazem indispensáveis; e deve V.S. procurar com a maior eficácia todos os meios, para que os que ainda atualmente existem, assim nos Campos do dito distrito da Vacaria, como nos de cima da Serra, os naõa desamparem; e os que já se apartaram voltem para eles podendo de uns, e outros tirar-se as grandes utilidades, que V.S. conheceu, e me pondera.

Deus guarde a V.S. Rio 21 de maio de 1781/ Luis de Vasconcelos e Souza/ Sr. brigadeiro Sebastião Xavier da Veiga Cabral da Camara/”

Ofício de 02/12/1781 do governador do Rio Grande ao vice-rei do Brasil:

Mmo. E Exmo. Sr./ Ao depois de ter eu mesmo reconhecido a grande importância, em que antes prigosamente deixava de conceituar a fronteira da Vacaria, confiando nas providências, que se fizeram compatíveis com os meus conhecimentos a boa ordem, e possível segurança daquele vastíssimo distrito, e do de cima da Serra; não tardou, bem a meu pesar, em desenganar-me, a experiência tanto, de que a minha conjectura se frustrara, como da causa, que consiste na quase geral falta de zelo do Real Serviço, e do bem comum, que observo nos habitantes de semelhante país, atrevendo-me a assegurar a V.Excia., sem nenhum encarecimento, mas com muito receio de não ser acreditado, que em toda a referida fronteira da Vacaria não descubro pessoa secular, da qual me prometa o desempenho de algum encargo sério, a exceção do alferes da Companhia da Cavalaria Auxiliar do Distrito da Vacaria Manoel da Fonseca Paes. Acha-se porém este honrado sujeito, que várias vezes tem sacrificado a vida, e fazenda aos interesses da Soberana, e da Pátria, na extrema miséria de não ter absolutamente, de que sustentar-se, nem lhe restam outras esperanças, que não sejam as que eu lhe tenho dado, afim de o conservar para incumbi-lo, como faço, se V.Excia. Não mandar o contrário, da expressada fronteira da Vacaria: a cujo fim atendendo não só a autorizá-lo, mas a destinar-lhe, de que viva, não me posso dispensar de rogar a V.Excia. Se digne provê-lo no posto de tenente da Cavalaria Ligeira em lugar de Ignácio Gomes Cardozo, que excedendo mais de um ano a licença, com que saiu deste Continente, o seu mesmo coronel o dá por vago, e creio avisa a V.Excia. Satisfazer-se da minha proposta.

Deus guarde a V.Excia. Muitos anos Porto alegre 2 de dezembro de 1781/ Mmo. E Exmo. Sr. Luis de Vasconcelos e Souza/ Sebastião Xavier da Veiga Cabral da Camara/

Ofício do Cel. Rafael Pinto Bandeira, de que trata o ofício acima..

Mmo. E Exmo. Sr./ Vejo-me obrigado por na presença de V.Excia., que Ignácio Gomes tenente de uma das Companhias do meu Corpo teve seis meses de licença registrada concedida pelo governador Jozé Marcelino de Figueiredo, poucos antes de se retirar deste Continente: este oficial já excede a licença tanto, que para janeiro do ano futuro de 1782 completará dois, que saiu deste Continente, e não me consta, que o dito tenente tenha recorrido a V.Excia. A fim de reformar a licença, e se o tem feito, me não tem participado, como deveria: e porque julgo este posto vago, e o meu governador se lembra de propor a V. Excia. Um sujeito benemérito, e muito preciso ao Real Serviço, sendo do agrado de V.Excia. Fazê-lo, eu me dou por contente e satisfeito.

Deus propere a V.Excia. Felizes anos, e o guarde, como apeteço. Vila do Rio Grande de São Pedro 10 de novembro de 1781/ De V.Excia/ o mais humilde soldado/ Rafael Pinto Bandeira/”

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