Massacre dos Índios na Campanha da Vacaria – Depoimentos

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10/12/2016 por FG Rincão da Forquilha

As escaramuças entre índios e fazendeiros da Campanha da Vacaria resultaram no massacre de 1779.

O personagem central deste episódio foi o capitão Joaquim José Pereira, comandante da Companhia de Cavalaria Auxiliar de Vacaria. O massacre ocorreu em meados de dezembro/1779 e gerou protestos e pedidos de explicação do vice-rei das Províncias do Rio da Prata ao vice-rei do Brasil.

Os fatos ocorridos e seus desdobramentos foram documentados nos ofícios trocados entre governadores e responsáveis pelo governo do Rio Grande e o vice-rei do Estado do Brasil, Luis de Vasconcelos e Sousa, anuários de 1780 e 1781, arquivados na Biblioteca Nacional – Coleção Castelo Melhor.

Em 15/03/1781 o governador do Rio Grande, Veiga Cabral marchou com uma comitiva para Vacaria, para conhecer a região e apurar os fatos a mando do vice-rei do Brasil.

Em 14/04/1781 o governador do Rio Grande enviou ofício ao vice-rei do Brasil relatando suas impressões sobre o fato e anexando os inquéritos e a situação da povoação de Vacaria naquele momento.

Abaixo está transcrita a íntegra destes anexos:

Documentos que acompanharam o Ofício acima

Inquirição que eu Manoel Carvalho de Souza, tenente do Regimento de Dragões do Rio Grande fiz por odem, e na presença do Sr. Brigadeiro Governador do dito Continente as pessoas abaixo assinadas, sobre o sucesso do ataque e repulsa dos gentios, que ultimamente insultaram este distrito e fronteira. Freguesia de Nossa Senhora da Oliveira na Vacaria 23 de março de 1781/

Luis Antonio da Rocha, morador deste distrito de idade de 62 anos, que vive de sua estância, declarou debaixo do juramento dos Santos Evangelhos, que em princípio de dezembro do ano próximo passado, andando quatro homens deste mesmo distrito na diligência de prender quatro negros, que haviam fugido a diferentes moradores, encontraram num rincão nos fundos da Vacaria alguns gentios, que intentando impedir o passo aos ditos quatro homens, se puseram estes em retirada, não podendo livrar-se um deles de vir flechado, e ferido pelos ditos gentios, o qual se chamava Antonio Martins, e parando estes na Estância de Jozé Alves, até aqui os seguia o gentio, e não encontrando na casa sinais, que três escravos da mesma estância os mataram, fazendo o mesmo a trinta cavalos, que acharam no curral, algumas vacas, ovelhas, cachorras, e tudo o que era vivente pereceu; e passados poucos dias depois de se retirarem, sairam a estância, chamada de Santa Rita, a de Cipriano da Costa, onde quebraram portas e janelas, e roubaram alguns jarros, que depois de romperem, os desprezaram, e passando adiante chegaram por fim na casa do alferes Manoel da Fonseca Paes, onde continuaram a fazer os mesmos estragos, não perdoando a tudo, o que era vivente, e retiraram-se para a estância do dito Cipriano, onde foram encontrados de 60 pessoas nossas, que se ajuntaram, convocadas pelo alferes Manoel da Fonseca Paes os deste distrito, sendo o maior número, o que trouxe o capitão Joaquim Jozé Pereira, aos quais saíram a peleja os gentios com grande furor, e aqui me defesa das vidas, e fazendas se mataram, os que se encontraram, que seriam pouco mais ou menos cincoenta e seis, ou cincoenta e sete; e mais não disse, e se assinou; e eu Manoel Carvalho de Souza, tenente de Dragões, que o escrevi/ Luis Antonio da Rocha/

Jozé de Campos Banderbür, morador neste distrito, que vive de sua estância, de idade, que disse ser de 62 anos: Declarou debaixo do juramento dos Santos Evangelhos, que nos principios do mês de dezembro, foram vistos nos fundos deste distrito da Vacaria alguns gentios, os quais pretendendo sercar, e matar quatro homens, com quem se encontraram, ou para dizer melhor, a quem sairam, e flecharam um deles chamado Antonio Martins, passaram as estâncias, que se lhe seguiam, matando em todas tudo o que era vivente, e roubando, escalando portas e janelas, tiravam o que achavam, e mataram três negros da fazenda de Jozé Alves, e dando parte destes desacatos o alferes Manoel da Fonseca Paes ao capitão do distrito Joaquim Jozé Pereira veio este com 40 pessoas, as quais unidas a 20, que aqui haviam, passaram a rebater a fúria, com que vinha o dito gentio, e encontrando-se na estância do furriel Cipriano, sairam prontamente os inimigos, disparando algumas flechas, dando bem a conhecer, que o seu intento era não perdoar a nada, e aqui foram mortos pelo menos quarenta e tantos, escapando deste lote dois ou três; porém que os fogos pelos matos continuaram daqui em diante a ver-se; porém não fizeram mais hostilidades; e que quanto a mortandade, e peleja tudo, o que tem declarado, é por ouvir dizer; e mais não disse, e se assinou; e eu Manoel Carvalho de Souza, que o escrevi/ Jozé de Campos Banderbür/

Manoel da Fonseca Paes, alferes da Cavalaria Auxiliar deste distrito, que vive de sua estância, de idade que disse ser de 49 anos: Declarou debaixo do juramento dos Santos Evangelhos, que no dia 2 de dezembro do ano próximo passado sairam nos fundos dos Campos dessa Vacaria quarenta ou cincoenta gentios, e flecharam a Antonio Martins, que com três companheiros andava na diligência de prender uns negros, que haviam fugido a diferentes moradores; e no dia 7 do referido mês de manhã, deram os mesmos gentios na fazenda de Jozé Alves, onde mataram três negros, vinte e nove animais cavalares, cincoenta ou sessenta ovelhas, e tudo o mais que era vivente, roubando todos os móveis, que acharam na casa. Passados alguns dias deram na Fazenda do tenente Apolinário, e roubaram, o que acharam, havendo-se antes retirado a gente; e o mesmo aconteceu na fazenda de Santa Rita: prosseguiram a fazer os mesmos danos na fazenda do furriel Cipriano da Costa, donde fugiram dez homens por suporem número muito grande dos mesmos gentios, e aqui roubaram e mataram tudo, o que encontraram; Passados dois ou três dias mandando ele declarante explorar, e bombear ao dito gentio, os acharam arranchados nas mesmas casas, e saindo a peleja armados de arco, flecha e bordões, e aqui mataram os nossos a dois gentios, e os mais se puseram em retirada; Passados cinco ou seis dias voltou em número grande o inimigo, e chegou a casa dele declarante, onde estavam dez pessoas, que o mesmo declarante trazia a explorar, e retirando-se estes por temerem o grande número, roubou o mesmo gentio tudo, o que tinha em casa, e mataram todos os animais, que encontraram, escalando-lhe portas e janelas; daqui voltaram para a fazenda do sobredito Cipriano, onde foram encontrados por sessenta pessoas nossas, não obstante, que nem todos acometeram, achando-se porém no ataque o capitão Joaquim Jozé Pereira, e ele declarante, e aqui se mataram sessenta e tantos, escapando-se alguns, e o maior foram, que estava arranchado pouco adiante, os quais se meteram nos matos, porém outro igual número, que vinha pela estância de Santa Rita em seguimento de três índios de Missões, aos quais seguiram até o lugar em que encontraram mortos os seus companheiros; daqui voltaram para os matos, e até o presente não tem saído; porém foram vistos diferentes fogos do mesmo gentio em todo o verão, e a pouco mais de um mês, que se não tem divisado mais os fogos. Declarou mais que o mesmo gentio, logo que avistou a nossa gente, saíram com grande furor a pelejar, disparando repetidas flechas, e dando bem mostras de que o seu intento era matar, e roubar tudo o que encontraram, destruindo, e quebrando aquelas coisas, a que não sabem dar valor ainda que o tenham, e mais não disse, e se assinou; e eu Manoel Carvalho de Souza, que o escrevi/ Manoel da Fonseca Paes/

Ignácio Antonio Corrêa, morador neste distrito da Vacaria, que vive de sua estância, de idade, que disse ser de 35 anos: Declarou debaixo do juramento dos Santos Evangelhos, que nos principios do mês de dezembro do ano passado, saindo o gentio nos fundos deste mesmo distrito a quatro homens, que andavam procurando uns negros fugidos, flecharam a um deles chamado Antonio Martins, e daqui em diante desaforaram-se de tal sorte, que acometeram a fazenda de Jozé Alves, onde mataram três negros, e todos os animais, que encontraram, roubaram, o que havia em casa, e passaram a estância de Jozé Pereira, a de Cipriano da Costa Monteiro, a de Apolinario de Almeida, e a do alferes Manoel da Fonseca Paes, matando em todas elas tudo, o que era vivente, e roubando todos os móveis, que encontraram, escalando portas e janelas, de tal sorte furiosos, que a não encontrarem oposição não ficaria pessoa, nem animais neste distrito, porque tudo matavam com a maior crueldade, até que incorporados sessenta pessoas pouco mais ou menos, em cujo número entrava ele declarante, o capitão Joaquim Jozé Pereira, e o alferes Manoel da Fonseca, resolveram estes ser necessário rebater semelhantes inimigos, e com efeito os encontramos na estância de Cipriano da Costa, onde logo sairam a peleja, atirando repetidas flechas, e travada a peleja, se mataram cincoenta ou sessenta gentios, fugindo alguns; e mais não disse, e se assinou; e eu Manoel Carvalho de Souza, que o escrevi/ Ignacio Antonio Corrêa/

Joaquim Antonio de Oliveira, morador neste distrito da Vacaria, que vive da sua estância, de idade, que disse ser de trinta e dois anos pouco mais ou menos: Declarou debaixo do juramento dos Santos Evangelhos, que ele sabe por ouvir dizer, por se achar a esse tempo fora deste distrito, que no mês de dezembro do ano passado saíram os gentios nos fundos da Vacaria, e flecharam a Antonio Martins, e que depois foi público e notório, que mataram três negros da estância de Jozé Alves, cavalos, vacas, ovelhas, e tudo o que era vivente, que passaram a estância de Apolinário de Almeida, a de Cipriano, a do alferes Manoel da Fonseca, fazendo os mesmos roubos, e hostilidades, e mortes, e que ajuntando o alferes Fonseca alguns homens, deu parte ao capitão do distrito Joaquim Jozé Pereira, o qual veio com número de gente, e assentaram ser preciso defender as vidas, e as fazendas, e encontrando-se com alguns dos ditos gentios na estância do referido Cipriano, mataram os que encontraram, e mais não disse, e assinou; e eu Manoel Carvalho de Souza, que o escrevi/ Joaquim Antonio de Oliveira/

Declaramos os abaixo assinados, que o mês de dezembro, em que o gentio coroado saiu a hostilizar este distrito é do ano de 1779, e não o de 1780, como se entende dos nossos depoimentos; e assim mesmo declaramos mais que o terreno, onde habitaram os dito gentios, é pertencente a Portugal; de que para constar fiz este termo, em que assinam; e eu Manoel Carvalho de Souza, que o escrevi/ Jozé de Campos Banderbur/ Manoel da Fonseca Paes/ Ignacio Antonio Corrêa/ Joaquim Antonio de Oliveira/ Luis Antonio da Rocha/ / Está conforme/ Sebastião Xavier da Veiga Cabral da Camara/…

Lista dos que se mudaram antes da invasão dos Bugres desta Vacaria

  • O capitão Bernardo Jozé Pereira, que extraiu todo o gado, e animais cavalares, e deixou a sua estância despovoada, vai a 2 anos.
  • O coronel Rafael Pinto Bandeira da mesma sorte, vai a 5 anos pouco mais ou menos.
  • A Thereza Machada, em quanto a gente despovoou antes da invasão dos Bugres; e em quanto aos animais depois da dita invasão a 2 ½ anos.
  • O capitão Joaquim Jozé Pereira de tudo despovoou antes dos Bugres, haverá 1 ½ ano.
  • Jozé Roiz, homem casado, mudou-se para a Laguna, e pelo Natal fez venda da sua estância aos mulatos do capitão Joaquim Jozé Pereira, haverá pouco mais de dois.
  • Francisco Roiz, homem casado, também se mudou para a Laguna com toda a sua família, e vendeu a fazenda ao seu irmão Manoel Roiz, este a pouco mais de ano.
  • Salvador Bueno da Fonseca, tenente feito pelo capitão Pedro da Silva Chaves a 2 anos pouco mais ou menos, que foi buscar novo estabelecimento pelas partes de Rio Pardo, ou Rio Grande, deixando aqui sua família, e fazenda no mesmo estado, este a perto de 2 anos.
  • Balthazar Gomes de Escobar e Godois vendeu ao capitão Joaquim Jozé Pereira, e este a passou a Joaquim Antonio de Oliveira, passando-se o dito Balthazar Gomes para Santo Antonio da guarda velha, levando consigo toda a sua família, este há pouco mais de ano.
  • Jozé Pereira da Silva vendeu a sua estância a Joaquim Antonio de Oliveira, e os animais ao tenente Apolinario de Almeida Roriz, que os passou para a Vila das Lages; e depois de todas estas vendas se ausentou logo na ocasião dos Bugres para as partes de Viamão, este haverá 1 ano.
  • Ignacio Antonio Corrêa, que aqui se acha na povoação, vendeu os animais, e a deixou despovoada, haverá 1 ano.
  • Leandro da Silva vendeu tudo a Salvador Roiz Penteado, e se acha morador em Santo Antonio da guarda velha, com toda a sua família, mulher, filhos, escravos; este haverá 1 ano.
  • Anselmo Jozé com mulher, filhos, escravos, mudou-se para a Laguna, deixando a sua estância despovoada, e os animais se não sabe com certeza, onde se acham, este haverá 3 anos.
  • Salvador de Candia Nogueira, homem casado, mudou-se para as partes do Rio tubarão, deixando na estância um filho, que tem cuidado nela, este haverá 2 anos.
  • O capitão Antonio da Costa Ribeiro, homem casado, mudou-se para a Laguna com toda s sua família, deixando a sua estância no mesmo estado em poder de seus escravos, este haverá 2 anos.
  • O tenente Apolinario de Almeida Roriz, haverá 3 anos com pouca diferença foi-se casar a Laguna, e lá tem estado morador com sua família, deixando a sua estância na Costa da Serra em poder de um capataz seu escravo.
  • Francisco Alves de Oliveira, homem casado, se mudou para as partes de Viamão com toda a sua família, e vendeu a sua fazenda a Joaquim Antonio de Oliveira; este haverá 3 anos.

Vacaria 23 de Março de 1781/ Manoel da Fonseca Paes/ Alferes da Companhia de Auxiliar/..

Lista dos que se mudaram da Vacaria depois do invasão dos Bugres

  • Jozé Pereira, mudou-se para a Laguna com toda a sua família, vendendo os animais, e deixando os campos devolutos.
  • Cipriano da Costa Monteiro, homem casado, mudou-se para as partes de Coritiba, vendendo a sua fazenda ao tenente Apolinário.
  • O tenente Apolinario de Almeida Roriz da sua fazenda dos fundos retirou a gente, deixando com todos os seus animais.
  • Jozé Alves, homem casado em Sorocaba no tempo, em que vinha para a sua fazenda de marcha com sua mulher, teve aviso do sucesso, de que a deixou vindo só, vendeu os animais, e deixou os campos devolutos, cujos animais seriam quinhentos e tantos em número, cuja venda fez indo com eles de marcha no distrito das Lages.
  • Jozé Carneiro Giraldez retirou a sua gente, e animais para as partes de Viamão, deixando os campos devolutos.
  • Pedro de Barros Leite vendeu a sua fazenda a Julio da Costa, e ele foi para São Paulo com a sua tropa, deixando a sua família.
  • O ajudante Jozé Roiz Betim vendeu o seu estabelecimento a Joaquim Jozé Pereira, e ele foi para São Paulo com tropa.
  • Antonio Jozé de Freitas, casado, se mudou para Santo Antonio com sua família, e deixou a sua fazenda entregue a um capataz.

Vacaria 23 de Março de 1781/ Manoel da Fonseca Paes, Alferes da Companhia Auxiliar/..

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Um pensamento sobre “Massacre dos Índios na Campanha da Vacaria – Depoimentos

  1. Patricia K Borges disse:

    Nossa, desculpe a demora em responder! Vi seu comentário no meu blog somente hoje! Tenho neglicenciado o blog em função de muitos afazeres e outras pesquisas genealógicas, consegui concluir participação em um livro e agora estou de volta aos vacarianos. Na verdade, eu recebo por email as notificações do blog, que estavam escondidas em uma aba! kkk Obrigada por compartilhar. Estes documentos eu tinha interesse em pesquisar direto na fonte e agora aqui estão. Abraços!

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